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Capitulo 4 Colisão

  Dez anos haviam passado desde que Gehard atravessara os port?es de Aster sem olhar para trás.

  E, contra todas as probabilidades, o mundo n?o desmoronou.

  Ele floresceu.

  A comunidade — agora oficialmente chamada Aster — já n?o lembrava o assentamento improvisado de sobreviventes que um dia fora. Os galp?es haviam sido refor?ados com estruturas de liga leve trazidas de Teluria. As estufas eram autossustentáveis, com sistemas híbridos de irriga??o movidos a energia cinética e solar. Os campos produziam três colheitas anuais.

  O ar n?o carregava mais medo.

  Carregava rotina.

  Carregava esperan?a.

  As caravanas n?mades haviam se fixado em regi?es áridas próximas ao antigo litoral elevado. Quil?metros de casas móveis, empilhadas em dois ou três níveis, com varandas improvisadas e bandeiras coloridas tremulando ao vento seco. Madeira, ferro reaproveitado, rodas grossas de borracha resistente.

  Davam certo.

  Moviam-se com dignidade.

  E Teluria — a cidade da tecnologia biodiversiva — brilhava ao longe nas noites claras, alimentada por redes de energia limpa desenvolvidas em conjunto com Aster. Muito daquele brilho tinha assinatura invisível de uma jovem que preferia n?o chamar aten??o.

  Ruth.

  O mundo estava em equilíbrio.

  Pelo menos na superfície.

  Dellamuta caminhava pelas ruas de pedra com passos firmes.

  Dez anos mais velho.

  Os fios grisalhos come?avam a se espalhar nas laterais da barba.

  O corpo ainda ereto, largo, sólido, um metro e noventa de presen?a silenciosa de alguém que ja fora um grande atleta um dia.

  Ele observava.

  Crian?as correndo entre canteiros.

  Caminh?es híbridos descarregando mantimentos.

  Tecel?es organizando rolos de tecido térmico para o inverno que se aproximava.

  Funcionava.

  Tudo funcionava.

  Ao passar pelo antigo gramad?o, ele diminuiu o passo.

  O campo onde antes pedras levitavam de forma descontrolada e rajadas de vento arrancavam risadas nervosas agora era um mar de flores lilases. O vento as movia como uma respira??o coletiva.

  Ali, uma gera??o despertara.

  Agora treinavam em outro lugar.

  Mais discreto.

  Mais estratégico.

  Quase duzentos metros adiante, além de uma linha de árvores recém-plantadas, ficava a nova área de treinamento: uma quadra refor?ada com material sintético e um bosque controlado ao redor. As árvores ali cresciam sob orienta??o de Pedro, mas ninguém comentava isso abertamente.

  Victor ouviu o som antes de ver.

  Impacto, respira??o, passos precisos.

  E ent?o os viu.

  Evan se movia com fluidez.

  Cabelos negros caindo levemente sobre a testa.

  Olhos azuis atentos, mas serenos.

  O corpo mais alto, mais definido, n?o exagerado, mas treinado.

  Ele girou, bloqueou um golpe de bast?o com o antebra?o e respondeu com uma chave de ombro perfeitamente executada.

  Diogo caiu para trás, controlado e sorriu.

  — Melhorou o tempo de rea??o — comentou o professor, levantando-se. — Mas ainda deixa o flanco esquerdo aberto quando pensa demais.

  Evan soltou um riso leve.

  — é que eu sempre penso demais.

  — é seu problema e sua virtude — respondeu Diogo.

  Victor aproximou-se.

  — Tudo bem, Evan. Como vai o treinamento? — perguntou, cruzando os bra?os.

  Evan limpou o suor da testa.

  — Melhorando. Agora consigo sustentar descarga contínua por alguns segundos sem perder foco.

  — Vi isso ontem — disse Dellamuta. — Direcionar um raio por tempo prolongado exige mais do que potência.

  Evan inclinou a cabe?a.

  — Eu sei, chefe Della... agora eu n?o disparo. Eu conduzo.

  Victor ergueu uma sobrancelha.

  — Conduz?

  Evan sorriu de lado.

  — Aprendi que raio n?o é explos?o. é caminho. Só preciso mostrar pra ele onde cair.

  Um breve silêncio satisfeito pairou.

  Grace observava a poucos metros.

  Ela n?o era mais a garota tímida de ombros encolhidos.

  Os cabelos castanhos lisos agora caíam até metade das costas. O olhar firme, postura confiante. Quando concentrava sua energia, o roxo suave vibrava ao redor dela como um véu protetor.

  Ela cruzou os bra?os.

  — Ele só fala bonito porque sabe que você vai elogiar.

  Evan virou-se.

  — Ciúmes do meu discurso técnico?

  — Ciúmes do seu ego elétrico.

  Eles sorriram.

  Anne estava encostada em uma árvore próxima, conversando com Luiz.

  O cabelo preso alto. A postura relaxada. O olhar impossível de decifrar.

  Quando ativava sua magia, ela n?o parecia lan?ar energia.

  Parecia incendiar o ar.

  Luiz mantinha a luz na palma da m?o como quem segura uma chama paciente. Ele era estabilidade. Anne era intensidade contida.

  Um casal que ria alto no meio da roda.

  E ficava silencioso demais quando sozinhos.

  Pedro e Cristopher estavam discutindo algo — como sempre.

  — Aposto que consigo erguer aquele bloco inteiro — disse Pedro, o cabelo ruivo mais curto agora, os tra?os mais marcados.

  — E eu aposto que consigo envolver ele em água antes de você terminar de levantar — retrucou Cristopher.

  Maisa girava o vento em torno deles, fazendo a poeira dan?ar.

  Beth observava com os bra?os cruzados, o cabelo ruivo preso em um rabo alto.

  — Vocês dois parecem crian?as.

  — Nós somos competitivos — corrigiu Pedro.

  — Competitivos demais — disse Beth.

  Ruth aproximava-se com Bella.

  Discretas. Observadoras.

  Dellamuta olhou para todos.

  Eles n?o eram mais crian?as.

  Eram for?a, eram promessa.

  — Onde está o resto? — perguntou ele.

  — Aquecendo no bosque — respondeu Grace. — Pedro tentou "aumentar o desafio" e quase fez Diogo escorregar.

  — Foi estratégico! — gritou Pedro de longe.

  Diogo suspirou.

  — Foi caótico.

  Bella aproximou-se.

  — Caótico é o sobrenome deles.

  Ela parou ao lado de Dellamuta.

  Ele assentiu.

  — Quero ver o avan?o de vocês — disse Dellamuta. — Todos juntos.

  Os jovens se posicionaram.

  E pela primeira vez em muitos anos, o campo n?o parecia improvisado.

  Parecia preparado.

  Beth caminhou até o centro do campo.

  O vento tocava seus cabelos ruivos presos em um rabo alto, balan?ando levemente contra as costas. Ela fechou os olhos por um instante — n?o para se concentrar, mas para sentir. O fluxo. A respira??o do grupo. O ritmo de cada um.

  Ao redor dela, os outros se espalharam em posi??es que já n?o eram improvisadas. Eram naturais. Instintivas.

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  Uma forma??o construída ao longo de anos.

  Ruth observava tudo com aten??o calculada.

  As máquinas estavam alinhadas na extremidade da quadra, parcialmente escondidas pela borda do bosque. Estruturas metálicas refor?adas, tubos retráteis, mecanismos híbridos — parte tecnologia reaproveitada, parte engenharia nova.

  A Xmaxine.

  N?o tinha nome oficial.

  Mas o "X" sempre ficou.

  Evan posicionou-se alguns metros atrás da linha frontal, ao lado de Anne. Os cabelos negros caíam sobre a testa, os olhos azuis agora mais serenos do que impulsivos.

  Ele n?o parecia um garoto treinando.

  Parecia alguém que já conhecia o peso de lutar.

  Anne estendeu os dedos, e pequenas chamas roxas come?aram a dan?ar entre suas m?os — n?o violentas, mas densas. Quase conscientes.

  — Prontos? — perguntou Ruth, a m?o suspensa sobre o painel.

  Grace avan?ou um passo à frente. As chamas roxas mais escuras envolveram seus pulsos como véus vivos.

  Pedro fincou o pé no ch?o. Pequenas rachaduras se espalharam sob sua bota.

  Cristopher e Maísa trocaram um olhar nas laterais — água e vento já come?ando a circular discretamente ao redor deles.

  Luiz ficou de costas para Beth, no centro. A luz come?ou a vibrar ao redor de seus ombros, como se estivesse respirando junto com ele.

  Ruth inspirou.

  — Preparados?

  Todos assentiram.

  O silêncio antes da tempestade.

  — LIBERAR!

  Ela pressionou o bot?o.

  A Xmaxine despertou.

  Primeiro veio o som.

  Um estalo metálico.

  Engrenagens ajustando press?o.

  Tubos deslizando.

  Ent?o o ataque.

  Rajadas de fogo dispararam da lateral esquerda, rápidas e imprevisíveis. Jatos de água comprimida cruzaram o campo em arcos violentos. Raios artificiais rasgaram o ar em estalos brancos.

  Grace avan?ou antes que o primeiro projétil tocasse o solo.

  As chamas roxas se expandiram como uma maldi??o viva, engolindo o fogo lan?ado pela máquina e convertendo-o em vapor lilás. Quando uma descarga elétrica veio em sua dire??o, ela envolveu o próprio corpo em luz translúcida.

  Sumiu por um segundo.

  Reapareceu dois metros à frente.

  Pedro ergueu o bra?o, e o ch?o respondeu. Uma muralha de pedra subiu entre o grupo e uma sequência de rajadas de água, absorvendo o impacto. Raízes finas se projetaram pelo solo e se enrolaram nos pés das máquinas, for?ando-as a recalibrar.

  — Cuidado com o flanco direito! — gritou Cristopher.

  Maísa já estava lá.

  Uma rajada de vento girou ao redor dela, desviando agulhas elétricas que desciam como chuva. A água de Cristopher se ergueu do lago próximo em esferas compactas, absorvendo parte dos impactos antes de lan?á-las de volta como projéteis líquidos.

  No centro, Beth abriu os bra?os.

  Uma aura rosé-dourada expandiu-se ao redor dela, conectando-se aos outros como fios invisíveis. Pequenos cortes se fecharam antes mesmo de sangrar. A fadiga que come?ava a pesar nos ombros de Grace simplesmente... diminuiu.

  Luiz ergueu as m?os.

  Feixes de luz explodiram para o alto e se fragmentaram em dezenas de agulhas finíssimas. Algumas interceptaram rajadas no ar. Outras perfuraram as áreas de disparo das máquinas com precis?o cirúrgica.

  Evan observava.

  Respirava.

  Esperava o momento.

  Quando uma sequência simultanea de disparos cruzou o campo — fogo, água e raio em convergência — ele avan?ou.

  N?o correu.

  Disparou.

  O som veio depois.

  Um estalo azul rasgou o campo, e Evan apareceu à frente da linha defensiva, envolto em eletricidade contida. Seus bra?os se moveram como se estivesse conduzindo o próprio céu.

  O raio n?o explodiu.

  Foi direcionado.

  Por três segundos inteiros.

  Três segundos de controle absoluto.

  As máquinas falharam em sequência.

  Anne, atrás dele, abriu as m?os e criou uma parede de chamas roxas que absorveu os disparos restantes, protegendo o avan?o dele como uma sombra viva.

  O campo ficou em silêncio.

  Somente o som da fuma?a dissipando.

  Pedro respirou fundo.

  — Eu ainda sou o melhor front — murmurou, sorrindo.

  Grace girou os ombros.

  — Sonha.

  Ruth caminhou até a Xmaxine, analisando dados.

  — Calculando... Resposta defensiva 12% mais rápida que semana passada.

  Diogo cruzou os bra?os.

  — E menos hesita??o.

  Dellamuta observava tudo.

  N?o via apenas jovens poderosos.

  Via equilíbrio.

  Via disciplina.

  — Certo! Disparou, Ruth.

  O clique ecoou como algo pequeno demais para o que estava prestes a acontecer.

  A Xmaxine come?ou a girar.

  Dessa vez, diferente das semanas anteriores, Ruth aumentou o nível de potência manualmente.

  — Vamos maximizar a X. Treinaremos a combina??o elemental.

  Pedro fez uma careta.

  — Poxa... concentrar tanto poder assim... isso quebra.

  Maísa cruzou os bra?os, os olhos atentos.

  — N?o se a gente aprender a canalizar — respondeu calma. — O problema n?o é o poder. é como ele se encontra. Quando nossos elementos se cruzam, eles colidem. Precisamos fazer com que se conectem.

  Ruth assentiu.

  — Eu tenho motivos para acreditar que todos vocês compartilham uma mesma fonte energética. As partículas que medi essa semana reagiram de forma intensa na presen?a de carga elétrica... especialmente a do Evan.

  Anne ergueu o olhar.

  — Mas eu n?o tenho poder elétrico.

  Ruth a observou como quem já havia pensado demais sobre aquilo.

  — Talvez n?o diretamente. Mas acredito que os poderes de vocês nasceram da mesma origem... quando vocês chegaram pelo portal. Parte da energia pode ter se fragmentado. Se espalhado. Vocês podem estar... incompletos.

  Aquilo n?o assustou.

  Empolgou.

  Todos se posicionaram novamente.

  Dessa vez, Evan e Anne ficaram no centro.

  Olhos fechados.

  Respira??o lenta.

  Anne ouviu primeiro.

  Uma voz.

  Serena.

  Chamando seu nome como um eco distante.

  Anne...

  Anne...

  Um arrepio percorreu sua espinha.

  Por um instante, viu dois olhos roxo-escuros. N?o havia rosto. N?o havia forma. Apenas olhos que pareciam atravessá-la.

  Ela abriu os olhos por reflexo — mas nada estava ali.

  Evan ainda estava imóvel.

  Dentro dele, algo diferente acontecia.

  N?o havia voz.

  Havia silêncio.

  Um espa?o branco que n?o era sala, nem parede. Era como um céu nublado.

  Ele era o céu.

  E ent?o o céu come?ou a escurecer.

  Nuvens pesadas.

  Uma tempestade de ver?o se formando.

  O trov?o ecoou dentro da mente dele — e também fora.

  Na quadra, uma brisa come?ou a soprar.

  N?o era Maísa.

  Era o ambiente reagindo.

  O céu sobre Aster fechou completamente.

  O primeiro trov?o foi ouvido por toda a comunidade.

  Evan caiu com um joelho no ch?o.

  Uma m?o fechada contra a grama umida.

  A outra cerrada próxima ao queixo.

  Dentro da escurid?o mental, ele viu olhos.

  Laranja Sombrio.

  O olho Piscou.

  Dourado.

  Piscou.

  Roxo.

  Piscou.

  Vermelho.

  Ent?o um clar?o.

  Um zumbido que n?o machucava.

  De repente, ele sentiu todos.

  Pedro, Grace, Anne, Luiz, Beth, Maísa, Cristopher.

  N?o como indivíduos.

  Mas como correntes.

  Ele abriu os olhos Azul intenso.

  Como LEDs acesos no escuro.

  Uma aura acendeu em cada um deles.

  Cores distintas.

  Olhos brilhando.

  Ruth, Dellamuta, Bella e Diogo observavam imóveis.

  A ventania aumentou.

  A Xmaxine elevou o nível automaticamente.

  N?o apenas projéteis à distancia.

  Ataques próximos.

  Um bast?o metálico com espinhos surgiu apontado para Pedro e Grace.

  Um raio caiu diretamente sobre Evan.

  O ch?o iluminou.

  Pedro, com os olhos laranja-claros acesos, lan?ou as m?os ao solo.

  Uma raiz colossal ergueu toda a quadra.

  Uma ilha suspensa no ar.

  Dellamuta cambaleou.

  Anne flutuou, bra?os estendidos.

  Seus olhos roxos intensos criaram uma esfera protetora envolvendo os adultos.

  Grace tocou o ch?o.

  Chamas violetas envolveram a Xmaxine.

  Mas n?o apenas uma.

  Outras X's surgiram voando.

  Disparando simultaneamente.

  Maísa ergueu os bra?os.

  Olhos cinza-prateados.

  Um tornado se formou acima da ilha suspensa.

  As máquinas foram sugadas, rodopiando dentro do funil de vento.

  Cristopher puxou água do lago.

  Uma onda espiralada circulava como serpente líquida.

  Luiz disparava agulhas de luz que atravessavam projéteis no ar.

  Beth, no centro, irradiava energia rosé-dourada para todos os lados, ela se envolvia nas habilidades dos demais e ampliavam suas for?as.

  Ferimentos surgiam.

  E desapareciam no mesmo segundo.

  Tudo estava acontecendo rápido demais.

  Perfeito demais.

  Conectado demais.

  — PAREM! — gritou Dellamuta.

  — DESLIGUEM! — Ruth quase implorou.

  Mas eles n?o estavam ouvindo.

  N?o completamente.

  Era como se estivessem ligados a algo maior.

  E ent?o—

  Num impulso coletivo...

  Todos despertaram.

  Como se uma corda tivesse sido cortada.

  Tudo cessou.

  As raízes come?aram a descer rápido demais.

  Cristopher reagiu primeiro.

  A onda de água se espalhou sob a base antes do impacto.

  O ch?o retornou.

  O vento morreu.

  O céu clareou.

  A Xmaxine desligou.

  Respira??o pesada.

  Olhos ainda brilhando por alguns segundos... até apagarem.

  Eles se olharam.

  Sabiam.

  Tinham atravessado algo.

  Um limite.

  Dellamuta estava ofegante.

  Preocupado.

  Muito mais do que queria demonstrar.

  — Acabamos por hoje.

  O treino havia terminado, mas a energia n?o.

  Ela ainda vibrava no ar.

  Os jovens andavam por Aster como se o próprio ch?o estivesse leve sob seus pés. Riam mais alto. Falavam mais rápido. Havia um brilho diferente nos olhos deles — n?o arrogancia, mas a sensa??o perigosa de quem descobre que pode ir além.

  Eles estavam elétricos.

  E era exatamente isso que preocupava Victor Dellamuta.

  Desde o treino, ele n?o saíra de sua sala.

  A luz entrava pelas persianas de madeira e desenhava sombras retas sobre a mesa. Ele permanecia sentado, m?os entrela?adas, encarando nada.

  Aster funcionava como sempre.

  As colheitas iam bem. As trocas comerciais prosperavam. Crian?as corriam entre as casas de madeira e metal reaproveitado. O povo comentava com orgulho o avan?o dos jovens.

  — Se tem alguém capaz de proteger esse lugar, s?o eles.

  E era verdade.

  Eles eram capazes.

  Ent?o por que o aperto no peito n?o passava?

  Victor fechou os olhos por um instante.

  Poder demais.

  Confian?a demais.

  Exposi??o demais.

  Ele convocou Bella e Ruth.

  — Amanh? come?am as feiras do Vale e Teluria — disse Victor, de pé, bra?os cruzados. — Frutas raras. Sementes. Tecidos novos. Gente de toda parte.

  Bella apoiou as m?os na mesa.

  — E você está preocupado com o quê exatamente?

  — Com o que vem junto. Eventos noturnos. Jovens. Gente de comunidades que n?o conhecemos.

  Ruth ajustou os óculos.

  — Dado o crescimento exponencial das habilidades do grupo, a probabilidade de exposi??o involuntária aumenta proporcionalmente.

  Bella soltou o ar.

  — Você está com medo deles se exibirem.

  Victor encarou as duas.

  — Eu estou com medo do que pode acontecer se o mundo perceber o que eles s?o.

  — Eu n?o acho que o problema acaba depois da feira — ele continuou. — Acho que estamos adiando uma decis?o.

  Bella estreitou os olhos.

  — Que decis?o?

  Victor respirou fundo.

  — Quando atingirem a maioridade... cada um deve seguir seu caminho. Escolher onde ficar. O que fazer, assim como todo refugiado. Evan e Anne... talvez precisem permanecer. Mas os outros...

  — Você quer dispersar o grupo? — Bella explodiu. — Depois de tudo?

  — Eu quero evitar que se tornem um alvo.

  Ruth inclinou levemente a cabe?a.

  — Concordo parcialmente. Separa??o imediata seria emocionalmente instável. Porém oferecer escolha após o evento das feiras é racionalmente viável.

  Victor fechou os olhos por um segundo.

  — Depois da feira. Eu converso com eles.

  Bella assentiu, contrariada.

  A decis?o estava adiada, mas n?o descartada.

  O clima no alojamento era o oposto.

  Empolga??o, todos espalhados pelo ch?o, falando ao mesmo tempo.

  — Lembram da pulseira de couro que comprei ano passado? — disse Pedro. — Aquela que absorvia um pouco de impacto? Salvou meu bra?o quando o Chris resolveu virar tsunami ambulante.

  — Você que ficou na frente — retrucou Cristopher. — Estratégia falha.

  — Estratégia ousada.

  Luiz riu.

  — Eu quero ver aquelas lentes prismáticas de novo. As que ampliam feixes de luz. Se eu acertar direito, consigo dividir em cinco.

  — Só n?o cega ninguém — comentou Grace.

  Beth e Maisa estavam sentadas lado a lado.

  — Dizem que vai ter tecidos de Teluria com fios condutores naturais — comentou Maisa. — Dá pra entrela?ar com vento e criar roupas que se movem melhor.

  — Eu quero algo mais leve — disse Beth. — Aquela tiara que amplificava sensibilidade energética era linda.

  A porta se abriu de repente.

  Anne entrou e puxou Luiz.

  — Vocês n?o v?o acreditar!

  — Teluria vai fazer uma festa noturna — completou Luiz. — Com a feira. Música, luzes, apresenta??es.

  O grupo inteiro reagiu positivamente, demonstrando empolga??o.

  Na manha seguinte, as vans elétricas seguiram pela estrada antiga.

  Do lado de fora, cidades abandonadas eram engolidas pela natureza. Prédios rachados agora cobertos de trepadeiras. Antigos pastos transformados em campos ondulantes.

  Dentro da van, Pedro n?o parava.

  — Crist, estratégia pra festa?

  — N?o dan?ar mal.

  — Você n?o dan?a.

  — Exato.

  Evan ria encostado no banco.

  — Pedro acha que presen?a masculina resolve tudo.

  — E resolve — respondeu ele. — Confian?a é noventa por cento do jogo.

  — E os outros dez? — perguntou Luiz.

  — Sorriso.

  As meninas, em outra van, n?o estavam muito diferentes.

  — Ele vai tentar parecer desinteressado — comentou Grace sobre Evan, divertida.

  — Pedro vai tentar ser engra?ado — disse Beth.

  — Ele sempre tenta — completou Maisa.

  Anne cruzou os bra?os, misteriosa.

  — Luiz vai fingir que n?o se importa... mas vai.

  Risos.

  O Vale estava vivo.

  Barracas coloridas. Lanternas penduradas. Música distante. Cheiro de frutas e especiarias.

  Era movimento. Era calor humano. Era vida.

  O grupo se dividiu naturalmente.

  Os quatro rapazes caminharam juntos.

  — Se a gente for pra festa, nada de parecer desesperado — disse Cristopher.

  — Fala isso pra você mesmo — provocou Pedro.

  — E você, Evan? — perguntou Luiz. — Vai monopolizar a Grace ou deixar a gente competir no mercado aberto?

  Evan sorriu de canto.

  — Eu n?o preciso competir.

  — Arrogancia.

  — Confian?a.

  Eles entraram numa barraca que vendia braceletes refor?ados com minerais do norte.

  — Isso aqui absorve impacto de energia — comentou Cristopher.

  — Ou amplifica — murmurou Evan.

  Do outro lado da feira, as meninas experimentavam tecidos.

  — Esse aqui muda de tom dependendo da luz — disse Beth.

  — Eu quero algo que n?o me atrapalhe se eu tiver que correr — comentou Maisa.

  Anne segurava um frasco pequeno com pigmento luminoso.

  — Isso pode ser útil.

  — Ou perigoso — disse Grace, sorrindo.

  Horas depois, todos se encontraram novamente.

  Sacolas nas m?os. Gr?os, roupas, ferramentas, pequenas bugigangas.

  Antes de entrar na van, Pedro se inclinou levemente na dire??o de Beth e Maisa.

  — Um feirante falou de uma trilha na saída leste. Cachoeira secreta. Lago escondido. Perfeito pra... encontros.

  Ele piscou.

  As duas riram, fingindo indiferen?a.

  — Boa sorte encontrando o caminho — respondeu Maisa.

  — Eu sempre encontro — disse ele.

  As vans partiram.

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